ELEPHANTUS - O CHAMADO SELVAGEM DE UMA CONSTELAÇAO DE AMOR
- foscaworld
- 24 de jul. de 2025
- 4 min de leitura
Elephantus – O Chamado Selvagem de uma Constelação de Amor

Quando vi a tela de Fosca pela primeira vez, em 2019, lembrei daquela manhã na Maremma, muitos anos atrás, quando, levantando os olhos do caderno onde desenhava um martim-pescador, avistei uma família de javalis atravessando a clareira com a mesma graça silenciosa das estrelas que cruzam o céu noturno. Havia algo de misterioso naquele movimento, algo que falava de laços antigos, de conexões profundas que o homem moderno quase esqueceu.
Elephantus é uma daquelas obras que nos lembram que a verdadeira arte nasce sempre de um encontro: o encontro entre o olhar que observa e o coração selvagem do mundo. Fosca conseguiu capturar aquilo que sempre tentei transmitir com minhas ilustrações, em cinquenta anos vivendo entre florestas e lagoas: que a beleza nasce da relação íntima, paciente, quase contemplativa, com as coisas que nos cercam.

Olhem para esta constelação inventada: não é astronomia, é etologia da alma. Assim como quando observo o comportamento de uma águia por horas e, no fim, percebo que estou aprendendo algo sobre mim mesmo, diante desses fios que conectam estrelas inexistentes você entende que a artista está mapeando os territórios do coração. E, como todos os mapas importantes, este é feito de trilhas interrompidas, rasgos costurados, pontos de referência que às vezes desaparecem na neblina.
A tela rasgada e recomposta me comove profundamente. Quantas vezes, nos meus cadernos de campo, precisei reparar páginas arrancadas pelo vento ou manchadas pela chuva? Mas cada remendo, cada marca do tempo torna-se parte da história que se conta. Fosca sabe disso: feridas não são erros a esconder, são capítulos necessários do relato. Como as cicatrizes na casca de um carvalho secular, que falam de tempestades sobrevividas e primaveras reencontradas.
Os pregos que atravessam a superfície têm a mesma função dos anéis que permitem aos ornitólogos acompanhar a migração dos pássaros: marcam pontos vitais, momentos em que a vida parou para dizer “aqui”, “agora”. O que vejo não é violência, é atenção, a mesma necessária para não perder de vista um rouxinol na densidade da floresta.
E então há o cavalo. Ah, que animal extraordinário! Nos meus anos na Camargue aprendi a reconhecer a linguagem dos cavalos selvagens: cada movimento é uma palavra, cada relincho uma frase completa. O cavalo de Fosca carrega essa mesma energia contida, aquela força que sabe que deve ser governada, mas nunca perde a memória da liberdade. É o animal perfeito para falar de amor: poderoso e frágil, generoso e imprevisível.
Mas o que mais me impressiona nesta constelação é a cor. Aquele azul da aurora e o rosa que lembra ferrugem são cores que todo naturalista conhece bem: os primeiros sinais do dia que desperta, quando os animais noturnos cedem lugar aos diurnos, e por um momento mágico todos os mundos se tocam. É a hora em que vi os garços levantarem-se das águas de Burano, a hora em que a natureza se despia de suas defesas e se mostrava nua, vulnerável, magnífica.
A técnica de Fosca, essa paciência em tecer sinais que lembra o trabalho dos antigos naturalistas, me leva de volta aos meus mestres, àqueles que me ensinaram que, para desenhar um animal, é preciso antes aprendê-lo a amar. Cada pequeno traço, cada nuance nasce de horas de observação silenciosa, daquela forma de respeito que só a paciência ensina.
As estrelas diante de nós, e não acima de nós: eis uma intuição que todo explorador entende imediatamente. Não devemos olhar para cima, mas para frente, em direção ao horizonte onde se escondem as descobertas. É o mesmo olhar com que segui as pegadas do lobo nos Nebrodi ou as do urso na Abruzzo: um olhar que sabe que a verdadeira aventura sempre começa com um passo rumo ao desconhecido.
Elephantus me lembrou por que dediquei minha vida à natureza: porque, na relação com o mundo selvagem, aprendemos que cada criatura, cada planta, cada estrela, verdadeira ou inventada, tem uma história para contar. E que nós, pequenos exploradores neste planeta maravilhoso, temos o privilégio e a responsabilidade de ouvir essas histórias e transmiti-las.
Quando saírem desta galeria, façam como eu sempre faço após minhas viagens naturalistas: levem consigo um pedacinho do que viram. A constelação de amor de Fosca agora faz parte da sua bagagem de explorador. Usem-na quando o caminho ficar difícil, quando as estrelas verdadeiras parecerem distantes demais. Convido-os a descobrir suas outras constelações imaginadas, portas para um mundo delicado e raro. Lembrem-se de que o amor, como a natureza, sempre tem o poder de recomeçar, de se reinventar, de encontrar novos caminhos para a luz.
Fulco Pratesi
Presidente WWF



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