VOLUPIA
- foscaworld
- 2 de jan. de 2021
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Volupia

Existe um momento da criação artística em que a violência se torna gênese, e eu o habitei plenamente ao conceber esta tela que leva o nome de uma antiga divindade romana da volúpia. Mas aqui a volúpia não é abandono sensual: é tensão criativa, é aquela força primordial que empurra o artista a combater primeiro com a matéria e depois consigo mesmo.
O fundo desta obra nasce de um corpo a corpo com pedaços de madeira e metal, de um gesto que pertence mais à arqueologia industrial que à pintura tradicional. Martelei, arranháei, lacerei a superfície até obter aquela vibração de quadrados que ressoa como código morse da contemporaneidade. É a linguagem da cidade, do canteiro, da modernidade que irrompe no ateliê como hóspede inesperado e necessário. E, no entanto, desta cacofonia nasce o silêncio: o da onça fêmea que emerge do caos como Vênus das ondas, mas com a majestade selvagem da América pré-colombiana.
A Panthera onca que pintei não é apenas um felino: é a encarnação de Tezcatlipoca, o "senhor do espelho esfumaçado" dos astecas, divindade da noite e do vento que podia assumir forma de onça para atravessar mundos. Suas manchas, que os maias chamavam "estrelas caídas na terra", aqui se tornam constelações de um universo paralelo onde a beleza não precisa de justificações. Com pincéis finos como agulhas de bordar—instrumentos quase ridículos para tela tão grande—acariciei cada pelo, cada nuance desta pelagem que carrega as cores do outono europeu fundido com o fogo tropical.
Há algo profundamente feminino nesta onça, uma feminilidade que não se manifesta na graça convencional mas na consciência da própria força. O fato de que na realidade este felino não ruja mas emita sons delicados, quase melódicos, torna-se metáfora de uma potência que não precisa se ostentar. É a mesma potência que procurei infundir no meu gesto pictórico: a capacidade de ser monumental permanecendo sussurrada.
As flores que a circundam não são decoração mas oferendas votivas, ex-votos cromáticos que moldam um altar laico da beleza. Pintei-as com a minúcia de um miniaturista medieval, porque acreditava—e ainda acredito—que cada pétala deve ter a mesma dignidade ontológica do conjunto. São flores impossíveis, nascidas da minha memória de viagem mas transfiguradas pela urgência expressiva, flores que existem apenas naquele limbo entre lembrança e imaginação que é o verdadeiro território da arte.
A obra nasce da lembrança de um mosaico antigo onde uma divindade sentava sobre onça sagrada. Escolhi eliminar a divindade porque compreendi que o sagrado já estava todo contido no animal, na sua presença magnética, na sua capacidade de ser ponte entre mundo selvagem e doméstico, entre instinto e reflexão. É um quadro que fala de suspensão: a da pata erguida, a do olhar que intercepta o nosso, a do tempo que se dilata no instante do encontro.
No fundo, pintar esta onça foi um modo de me reconciliar com minha parte mais selvagem, aquela que a civilização gostaria de domesticar mas que a arte sabe manter viva. É o retrato da força feminina que não se desculpa por existir, que não se esconde atrás de convenções, que sabe ser doce sem renunciar a ser temível.



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